Vereador de São José dos Campos já votou no PSOL, participou do Movimento Brasil Livre e se tornou aliado de Lucas Pavanato. Eleito deputado estadual com mais de 178 mil votos, parlamentar acumula propostas conservadoras, disputas judiciais e declarações controversas.
O vereador de São José dos Campos e deputado estadual eleito Thomaz Henrique (PL) voltou ao centro das discussões políticas após defender maior autonomia para São Paulo, em uma publicação feita nas redes sociais depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo (25 de outubro). A manifestação chamou atenção não apenas pelo conteúdo, mas também pela trajetória política do parlamentar, que passou de simpatizante de ideias da esquerda a representante de pautas conservadoras.
Nascido em Jacareí, em 14 de dezembro de 1990, Thomaz Henrique Barbosa da Silva é filho de uma professora e de um caminhoneiro. Nas redes sociais, apresenta-se como jornalista, redator e cientista político, além de informar que é casado e pai.
Em entrevista concedida à TV Câmara de Jacareí, em 2017, o político revelou que tinha interesse pela literatura e sonhava em trabalhar como roteirista. Formado em Rádio e TV, contou que escrevia poemas e contos, havia participado de atividades teatrais e apreciava autores como Machado de Assis, Fiódor Dostoiévski e Rubem Fonseca.
Na mesma entrevista, Thomaz revelou que havia votado no então deputado federal Ivan Valente, do PSOL, nas eleições de 2010, e que gostava de ler obras de Karl Marx, um dos principais pensadores associados ao socialismo e ao comunismo.
Com o passar dos anos, entretanto, sua orientação política mudou. Thomaz passou a se identificar com o liberalismo econômico e aproximou-se do Movimento Brasil Livre (MBL), organização que ganhou projeção nacional durante as manifestações pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT).
Em 2016, quando trabalhava como estagiário da TV Câmara de Jacareí, assumiu a coordenação regional do MBL no Vale do Paraíba e participou da organização de manifestações contrárias ao governo petista em São José dos Campos.
Foi durante essa fase que conheceu Lucas Pavanato, atualmente deputado federal eleito pelo PL. Os dois participaram de mobilizações políticas e apoiaram a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República.
Posteriormente, Thomaz trabalhou na equipe do então vereador paulistano Fernando Holiday, na capital paulista, período em que também atuou ao lado de Pavanato.
A entrada na política institucional aconteceu em 2020, quando Thomaz Henrique disputou uma vaga na Câmara Municipal de São José dos Campos pelo Partido Novo. Ele foi eleito vereador com 5.159 votos, contando com a participação de Lucas Pavanato como voluntário de campanha.
Após o primeiro mandato, deixou o Novo e ingressou no Partido Liberal. Em 2024, conquistou a reeleição para a Câmara Municipal, recebendo 8.221 votos.
Nas eleições de outubro de 2026, Thomaz ampliou sua atuação política ao conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O parlamentar recebeu 178.164 votos em todo o estado, tornando-se o 11º candidato mais votado para deputado estadual.
Somente em São José dos Campos, seu principal reduto eleitoral, obteve 49.492 votos. A posse dos deputados estaduais eleitos está prevista para 1º de fevereiro de 2027. DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO+1
Ao longo de sua atuação como vereador, Thomaz Henrique apresentou projetos relacionados à segurança pública, educação, religião e costumes, alguns dos quais provocaram controvérsias e questionamentos na Justiça.
Em 2023, foi autor de uma legislação municipal que estabelecia o sexo biológico como critério para a participação de atletas em competições esportivas masculinas e femininas. Em agosto de 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo declarou a norma inconstitucional, após questionamento apresentado pelo Ministério Público.
Outra controvérsia envolveu o livro Meninas Sonhadoras, Mulheres Cientistas, retirado das escolas municipais de São José dos Campos em junho de 2024. A obra apresenta histórias de 20 mulheres, incluindo a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, e a antropóloga Débora Diniz.
Thomaz criticou o conteúdo da publicação, alegando identificar elementos de doutrinação ideológica. A Justiça, entretanto, considerou irregular o recolhimento e determinou a devolução dos exemplares às unidades escolares.
Em setembro de 2025, o vereador também se envolveu em uma discussão relacionada à participação da jornalista Milly Lacombe na Festa Litero Musical de São José dos Campos (Flim). Após críticas públicas feitas pelo parlamentar, a participação da convidada foi cancelada pela Prefeitura.
A decisão provocou manifestações contrárias de escritores e integrantes da organização, que apontaram censura. Posteriormente, a edição de 2025 do evento foi adiada.
Thomaz também enfrentou processos judiciais relacionados a publicações nas redes sociais. Em um deles, foi condenado inicialmente ao pagamento de R$ 50 mil por danos morais coletivos após divulgar um vídeo em que simulava um fiscal municipal cobrando propina.
A ação havia sido apresentada pelo Sindicato dos Servidores Municipais. Em julho de 2026, porém, o Tribunal de Justiça de São Paulo reverteu a condenação, reconhecendo que a manifestação estava protegida pela liberdade de expressão.
Em outro processo, o vereador foi condenado a indenizar o Partido dos Trabalhadores após publicar um vídeo associando a legenda a organizações criminosas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e as Farc. Na ocasião, informou que recorreria da decisão.
Apesar das controvérsias, o parlamentar também apresentou propostas que se tornaram leis municipais. Entre elas estão a autorização para criação de um programa de defesa pessoal para mulheres, a instituição do Dia Municipal de Combate à Cristofobia e a possibilidade de parcerias entre a Prefeitura e instituições religiosas para recuperação de dependentes químicos, condicionando a abordagem religiosa à autorização dos participantes.
Na educação, defendeu a implantação de escolas cívico-militares e apresentou iniciativas relacionadas à prevenção do assédio sexual contra mulheres no transporte coletivo. DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO
A mais recente repercussão envolvendo Thomaz Henrique começou após a confirmação da vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial.
Em publicação na rede social X, o deputado eleito afirmou que São Paulo contribui financeiramente para o país e precisa se submeter às decisões de outras unidades federativas. Na mensagem, defendeu a abertura de uma discussão sobre a autonomia paulista.
O parlamentar também alterou sua foto de perfil para uma imagem histórica de convocação de voluntários da Revolução Constitucionalista de 1932, movimento armado ocorrido em São Paulo durante o governo de Getúlio Vargas.
A manifestação levantou questionamentos jurídicos, uma vez que a Constituição Federal estabelece, em seu artigo 1º, que o Brasil é formado pela união indissolúvel dos estados, municípios e Distrito Federal. O artigo 60 também impede propostas de emenda constitucional destinadas a abolir a forma federativa de Estado.
Posteriormente, Thomaz esclareceu que a discussão sobre maior autonomia não significaria necessariamente defender a separação de São Paulo do Brasil. Segundo ele, a intenção seria estudar possibilidades de ampliar as competências legislativas dos estados por meio de mudanças constitucionais.
Procurado pelo g1, o parlamentar classificou sua publicação como autoexplicativa e informou que pretende detalhar suas ideias quando houver propostas concretas sobre o assunto. DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO+1
A trajetória de Thomaz Henrique reúne mudanças de posicionamento ideológico, atuação em movimentos políticos e disputas eleitorais que o levaram da Câmara Municipal de São José dos Campos à Assembleia Legislativa paulista.
Com a eleição para deputado estadual, o parlamentar passará a exercer seu mandato em âmbito estadual a partir de 2027, levando à Alesp as pautas que marcaram sua atuação política no Vale do Paraíba.
Fontes: g1 Vale do Paraíba e Região, reportagem de 26 de outubro de 2026; TV Câmara de Jacareí; Tribunal Superior Eleitoral (TSE); CNN Brasil Eleições 2026; Todo Dia Vale.