Relíquia de Nossa Senhora Aparecida é preservada há 117 anos por família de São Luiz do Paraitinga

Gravura histórica da Padroeira do Brasil, recebida como presente de agradecimento em 1909, atravessou gerações e reúne características que remetem ao século XIX.

Uma antiga gravura de Nossa Senhora Aparecida, preservada há 117 anos por uma família de São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba, guarda uma história marcada pela fé, gratidão e tradição familiar. A peça, que apresenta características de representações religiosas do século XIX, está atualmente sob os cuidados de Renata Obata, que recebeu a imagem como herança de seus pais.

A história começou em 1909, na região da Fazenda Laranjeiras, quando uma mulher chamada Faustina passou pela propriedade da família e foi acolhida pela bisavó de Renata. A visitante recebeu alimentação e um lugar para passar a noite.

Como forma de agradecimento pela hospitalidade, Faustina entregou ao bisavô de Renata uma gravura enrolada, semelhante a um pergaminho. O presente foi cuidadosamente guardado e acabou se transformando em um dos principais símbolos da devoção religiosa da família.

O nome da mulher responsável pela doação ainda pode ser encontrado no verso da gravura. Entretanto, não existem informações sobre como Faustina havia adquirido a peça antes de presenteá-la aos moradores da fazenda.

Em 1923, quando Cipião, avô de Renata, se casou com Luísa, o casal recebeu a imagem como presente de casamento. Durante aproximadamente cinco décadas, o quadro permaneceu na residência dos avós, onde passou a fazer parte das manifestações religiosas da família.

Segundo Renata, sua avó costumava reunir os filhos diante da imagem para contar a história de Nossa Senhora Aparecida e realizar orações. A tradição ajudou a fortalecer o vínculo afetivo entre as diferentes gerações e a antiga gravura.

Em 1973, o pai de Renata percebeu que a moldura do quadro estava danificada e decidiu providenciar sua recuperação. Após concluir o trabalho, tentou devolver a imagem ao pai, mas Cipião preferiu que o filho permanecesse com a peça.

A decisão marcou mais uma etapa na trajetória da relíquia, que passou a integrar a residência dos pais de Renata.

A possibilidade de que a gravura tivesse importância histórica começou a ganhar força em 1986. Naquele ano, a mãe de Renata encontrou uma reportagem publicada em um jornal do Santuário Nacional de Aparecida que apresentava uma imagem idêntica à preservada pela família.

A publicação trazia informações sobre a antiguidade e a produção daquele tipo de gravura, despertando o interesse dos familiares em conhecer melhor sua origem.

Em 2010, durante uma reforma na residência, o quadro acabou sendo atingido pela água, colocando em risco sua conservação.

Preocupada com a preservação da imagem, Renata providenciou uma nova moldura e adotou cuidados para evitar que a peça sofresse novos danos.

Diante da dedicação demonstrada pela filha, sua mãe decidiu entregar-lhe definitivamente a gravura, repetindo o gesto de transmissão familiar realizado pelo avô décadas antes.

Além do valor religioso e sentimental, a peça apresenta características históricas que despertaram a atenção da historiadora e pesquisadora Tereza Pasin, especialista na história de Nossa Senhora Aparecida e autora de livros publicados pela editora do Santuário Nacional.

Segundo a pesquisadora, a gravura reúne elementos que ajudam a identificar a época das imagens utilizadas em sua composição.

Um deles é a representação da própria Padroeira do Brasil, que provavelmente foi baseada em uma fotografia produzida em 24 de dezembro de 1869 pelos fotógrafos franceses Louis Robin e Valentin Favreau.

Naquela ocasião, os profissionais receberam autorização para fotografar a imagem original de Nossa Senhora Aparecida, produzindo o que é considerado seu primeiro registro fotográfico conhecido.

Outro detalhe importante é a presença de uma fotografia da Basílica Histórica de Aparecida, também conhecida como Basílica Velha.

A imagem mostra características do antigo largo da igreja anteriores às modificações realizadas em 1904, ano da coroação de Nossa Senhora Aparecida.

Naquele período, o espaço possuía um chafariz, posteriormente substituído por um monumento dedicado à Imaculada Conceição.

A gravura também apresenta a inscrição histórica “Verdadeiro Retrato de Nossa Senhora da Conceição Aparecida”, expressão utilizada em antigas reproduções religiosas da Padroeira.

Outro elemento identificado pela historiadora é a referência à gráfica francesa L. Turgis & Fils, localizada em Paris, empresa que produzia gravuras e imagens religiosas durante o século XIX.

A Biblioteca Nacional da França possui em seu acervo um catálogo da editora publicado em 1893, confirmando sua atuação naquele período.

Embora esses elementos apontem para referências visuais do século XIX, ainda não existe uma datação técnica definitiva que permita estabelecer o ano exato de fabricação do exemplar preservado pela família.

Para Renata, entretanto, o significado da gravura ultrapassa sua possível importância histórica.

A imagem representa lembranças dos pais, avós e bisavós, além dos momentos de oração que marcaram a convivência familiar.

A devoção a Nossa Senhora Aparecida possui uma ligação histórica com o Vale do Paraíba desde 1717, quando, segundo a tradição católica, pescadores encontraram a imagem da santa nas águas do Rio Paraíba do Sul.

Ao longo dos séculos, essa devoção se espalhou pelo Brasil, tornando Aparecida um dos principais destinos de peregrinação religiosa do país.

Em São Luiz do Paraitinga, a gravura preservada pela família Obata representa uma pequena parte dessa história, reunindo elementos da religiosidade popular, da memória familiar e da tradição cultural da região.

Mais de um século depois de ter sido entregue como um simples gesto de agradecimento, a imagem continua sendo conservada pelos descendentes da família que acolheu Faustina em 1909.

Fontes: g1 Vale do Paraíba e Região, reportagem de 31 de outubro de 2026; Portal Vale do Paraíba, 31 de outubro de 2026

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